Segunda-Feira, 23 de Outubro de 2017

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25/11/2016 - 00:00

Sobrevivente conta os horrores do Holocausto

Único brasileiro a sair vivo de campos de concentração, Stern dividiu comida com ratos
Por Redação

(cotidiano@webdiario.com.br)
Já se passaram mais de 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas os relatos de Andor Stern, único sobrevivente brasileiro do Holocausto, sobre os horrores vividos nos campos de concentração mostram a importância de que esse sombrio capítulo da história não seja esquecido. Principalmente no cenário atual, onde movimentos de extrema direta, semelhantes aos que deram origem ao nazismo, começam a ganhar força, tendo o preconceito em suas raízes. Nascido no Brasil, filho de um casal judeu da Hungria, Andor viveu aqui até os dois anos de idade, quando seu pai, que era médico, foi transferido para a Índia. Terminado o trabalho por lá, a família decidiu se juntar aos demais parentes na Hungria, onde o garoto teve uma infância feliz, até a invasão alemã. Primeiro, vieram as bombas. Depois, os judeus passaram a ser colocados em trens, com destino aos campos de concentração. Aos 12 anos, separado da família, foi levado para um deles e ainda acumulou passagens por outros três – incluindo Auschwitz, na Polônia. Por ser forte, na época, foi destacado para trabalhos braçais, o que assegurou que não fosse morto de imediato, como grande parte de seus companheiros. Após dois anos encarando fome, frio e torturas, conseguiu sobreviver, mas encontrou a liberdade, aos 14 anos, pensando apenas 28 quilos, em condições subumanas e sem nenhum familiar próximo. Dos 93 integrantes de sua família, apenas outros 4, mais distantes, chegaram vivos ao final da guerra.
Andor Stern no auditório 19 de Fevereiro (Foto: Renato Silvestre)
Andor reconstruiu sua vida no Brasil e hoje, aos 89 anos, ainda trabalha, em uma indústria petroquímica. Mas dedica grande parte de seu tempo a palestras nas quais conta sua história de vida. Uma delas aconteceu na segunda-feira, dia 21, no auditório do jornal Diário da Região, para alunos do 9º ano da Escola Estadual Antônio Raposo Tavares, o Ceneart, como parte de um projeto educacional que une a disciplinas de Língua Portuguesa e História, tendo como principal tem a o conhecimento da história para romper preconceitos.  A uma plateia atenta e curiosa, ele se recusou a contar qual foi o episódio mais violento que testemunhou nos campos de concentração. “É tão feio e triste, que nunca revelei a ninguém”, afirmou. Mas as  episódios que relatou dão a dimensão do quão terrível deve ser  o que ele prefere esconder. Para sobreviver, dividiu até comida com ratos. “Nossas roupas eram farrapos. Dormíamos no chão, sem meia e nem sapato, em um frio de 18 graus negativos. Só tomávamos banho quando nevava. Chafurdávamos na neve, como porcos na lama”, relembra. Com uma dieta inferior a 200 calorias por dia, ele e os demais presos sofriam de desnutrição, que levava a uma diarreia contínua. “É horrível falar isso, mas achávamos até bom, porque o líquido que escorria pelas pernas nos aquecia um pouco”, lembra. Em meio a tanto sofrimento, o suicídio não passou por sua cabeça. Mas isso nada teve a ver a com a esperança em um futuro melhor. “Quando se está nessa situação, você não pensa mais. Só tem instintos. Não pensa no amanhã. E nem em morrer. Só em conseguir comida ou água para o minuto seguinte”, destaca. No final a 2ª Guerra, com a iminente derrota, os alemães passaram a colocar os presos em trens, tentando transferi-los. Foi em uma dessas viagens, após passar 6 dias trancado, com outras dezenas de pessoas, em um vagão sem janelas, que Andor foi libertado, em uma cidade alemã. Uma “sorte” dupla, já que muitos morreram devido às condições da viagem –e sem saber que estavam tão perto da liberdade. “Era 1º de Maio de 1945. Os soldados americanos abriram o vagão e, assim que viram nossa condição, começaram a chorar. Passaram a nos jogar comida. Eu não tinha forças nem para comer. Já muitos dos que comeram, desesperados, acabaram morrendo, porque estavam tão desnutridos que o organismo não suportou”, conta. Ele não sabia sequer se estava vivo ou no céu. “Meu corpo era um verdadeiro zoológico, cheio de piolhos e carrapatos. Eles rasgaram nossas roupas e queimaram. Depois, nos jogaram um pó, para matar os insetos. E me levaram para um lugar onde havia uma cama e um pijama limpo. Achei que estava no céu. Me deram um mingau, e descobri que estava em um hospital, que funcionava improvisado em uma tenda”, completa.
 

“É horrível falar isso, mas achávamos até bom ter diarreia, porque o líquido que escorria pelas pernas nos aquecia um pouco”.

 

“Me levaram para um lugar onde havia uma cama e um pijama limpo. Achei que estava no céu. Depois descobri que estava em um hospital, que funcionava improvisado em uma tenda”.

 

“Quando se está nessa situação, você não pensa mais. Só tem instintos. Não pensa no amanhã. E nem em morrer. Só em conseguir comida ou água para o minuto seguinte”.

 

“As pessoas vivem buscando a felicidade, mas isso não existe. O que existe são momentos tristes e os de felicidade. E esses são muitos. Vão desde a hora em que eu acordo até o caminho que escolho para trabalhar porque tenho o mais importante: a liberdade”. 

 
TEMOR DE NOVOS TEMPOS SOMBRIOS
Andor deixa ainda, nas palestras, uma lição de vida à plateia: a verdadeira felicidade está em viver com liberdade. “As pessoas vivem buscando a felicidade, mas isso não existe. O que existe são momentos tristes e os de alegria. E esses são muitos. Vão desde a hora em que eu acordo, em uma cama limpa, tomo um banho quente, um ótimo café, visto um casaco e vou trabalhar, com meu carro, pelo caminho que escolho, porque tenho o mais importante, que é a liberdade”, relata. Ele conta ainda que não guarda qualquer raiva dos nazistas. “Isso seria ficar preso a essa história tão triste. Além disso, não foram todos os alemães que apoiaram o nazismo. Muitos foram contra. Até hoje, muitos alemães, ao me reconhecerem como sobrevivente do Holocausto, vêm me pedir desculpas”, lembra. Andor também falou, ao Diário, sobre a possibilidade dessa história se repetir. Nesse quesito, se divide entre o receio e a esperança. “Não sou a melhor pessoa para opinar sobre isso porque, como diz o ditado, gato escalado tem medo até de água fria. Temo por meus bisnetos. E acredito que onde há desigualdade, sempre há chance desses movimentos surgirem. Por outro lado, acredito na humanidade. Sei que a maioria das pessoas tem boa índole. E, no mundo de hoje, acho que seria mais difícil convencer um grande número delas sobre essas ideias”, opina. Andor  tem um depoimento imortalizado no Museu do Holocausto, em Washington DC, nos EUA, Sua história é contada ainda no livro “Uma Estrela na Escuridão”, do  historiador Gabriel Davi Pierin.




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