Nova espécie de orquídea é descoberta no Arquipélago de Alcatrazes (SP)

 Nova espécie de orquídea é descoberta no Arquipélago de Alcatrazes (SP)

Foto: Fabio Pinheiro/Arquivo Pessoal

Em 1835 Charles Darwin percebeu que as ilhas abrigam espécies exclusivas, diferente das que ocorrem nos continentes, e que a origem delas é resultado das adaptações necessárias para sobreviver às condições do ambiente isolado. Desde então, pesquisadores se dedicam a estudos sobre a variedade de fauna e flora típicas das ilhas de todo o mundo.

Pouco comum, porém, é constatar o surgimento de uma nova espécie acompanhando as primeiras mudanças genéticas dela, ainda imperceptíveis visualmente. E é exatamente isso que pesquisadores do Instituto de Biologia da Unicamp têm feito com uma espécie de orquídea.

“Há alguns anos ficamos sabendo que a orquídea Epidendrum fulgens, bastante comum no litoral de São Paulo, ocorria também no Arquipélago de Alcatrazes (SP). Uma equipe de pesquisadores viajou até a ilha e trouxe amostras dessa planta, que eu cultivei em estufas e hoje fazem parte da coleção da universidade. A ideia era fazer o cruzamento entre plantas do continente e plantas da ilha e avaliar a capacidade reprodutiva entre elas”, conta Fabio Pinheiro, biólogo e pesquisador do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp.

Nosso estudo foi o primeiro que realmente testou se os organismos eram capazes de se reproduzir com parentes do continente. Esse é um ponto determinante da formação de novas espécies, chamado de isolamento reprodutivo
—Fabio Pinheiro, biólogo

O teste foi crucial para dar início às investigações sobre uma nova espécie. “Afinal, a gente sabe que quando uma espécie está se formando, a primeira característica que surge é a incapacidade de se reproduzir com outras populações”, diz.

Os resultados animaram Fabio e Giovanna Veiga, aluna de iniciação científica do Laboratório de Ecologia Evolutiva do Instituto de Biologia. “Para a nossa surpresa elas não conseguiam mais se reproduzir. Ficamos bem contentes com o resultado, pois detectamos o surgimento de uma nova espécie na fase inicial do processo, antes mesmo de se diferenciarem morfologicamente”, comenta.

“Essa descoberta é muito interessante porque a partir dela conseguimos monitorar e descobrir quais elementos da paisagem e quais elementos geográficos podem influenciar na formação de uma nova planta”, reforça Fabio.

Como o processo de formação de uma nova espécie é demorado – podendo levar milhares de anos; os pesquisadores certamente não acompanharão toda a evolução da orquídea, mas os registros científicos desse e dos próximos anos de estudos serão cruciais para o futuro da ciência, principalmente no quesito isolamento reprodutivo e surgimento de novas espécies.

“A próxima etapa é entender os motivos que impedem a reprodução da espécie com as do continente. Há hipóteses de que as plantas da ilha podem ter metabolismo diferentes, polinizadores diferentes, podem captar a luz do sol de maneiras distintas, assim como se reproduzir de outra forma. A incapacidade de reprodução é suficiente para a descrição de uma nova espécie, mas estamos formalizando essa descrição com mais dados e informações”, explica Fabio, que destaca ainda a importância de estudos como esse para além da comunidade científica.

“Nós fazemos pesquisas assim para que a sociedade saiba mais sobre o que existe ao redor e conheça exatamente a diversidade que nos cerca. Para isso, é importante quantificar as espécies que ocorrem em todo o País, inclusive nas ilhas. Certamente existem outras plantas e animais esperando ser estudados”, completa.

A espécie de orquídea estudada pelos pesquisadores é abundante em todo trecho de litoral com restinga, desde Paraty (RJ) até Pelotas (RS).

Endêmica do Brasil, a espécie não corre risco de extinção no continente, mas o fato de haver uma ‘parente’ exclusiva em Alcatrazes acende um alerta sobre a conservação. “No continente a orquídea sofre ameaça somente quando a praia é urbanizada. Já na ilha, por ser um ambiente restrito e uma área pequena, qualquer interferência pode fazer com que a planta desapareça facilmente. As populações são muito pequenas, formadas por algumas dezenas de plantas”.

Além da coloração laranja, a flor chama atenção por nascer e crescer na areia, diferente de outras espécies de orquídeas que costumam se fixar nas árvores. “As borboletas são as principais polinizadoras dessa espécie, que não é muito usada como planta ornamental”, comenta Fabio.

Esses organismos de ilha são muito sensíveis. Se desaparecerem dali não vão existir outras fontes para recolonizar o local.

Apesar dos pesquisadores constatarem ainda no início a formação de uma nova espécie, esse processo começou há milhares de anos. “A gente sabe que há 20 mil anos o nível do mar era mais baixo que o atual e, por isso, Alcatrazes estava conectado ao continente. Conforme esse nível foi subindo, há cerca de 10 mil anos, ele se isolou como ilha. O que justifica o fato de abrigar uma população da Epidendrum fulgens”, finaliza. (g1.globo.com)

Da Redação