• 17/04/2021

O Big Brother Brasil e o Lugar de Fala: diálogo ou cancelamento?

Lucas Alves de Camargo

A edição do Big Brother Brasil de 2021 acendeu uma enorme discussão nas redes. Figuras públicas reconhecidas como lideranças no posicionamento em favor do direito das minorias e na luta pela democratização dos espaços e discursos estão sendo desconstruídas pelas suas próprias atitudes. Nessa nova realidade, na qual canceladores são cancelados, uma nova discussão se coloca diante de todos nós: Ser negro (a) ou ter uma origem pobre dá a alguém autoridade para falar sobre racismo ou a desigualdade? Ou ainda, ser negro (a) ou ter uma origem pobre confere ao indivíduo o privilégio de julgar ou zombar de outra pessoa a respeito de sua cor ou classe social?     

De acordo com Djamila Ribeiro, pesquisadora do campo da filosofia política, o lugar de fala é formado pelo espaço de cada um no interior das relações sociais, diz respeito a sua cor, classe social, gênero e local onde vivencia suas experiências: é o espaço que a pessoa ocupa no interior das muitas relações que vive. Todas as pessoas possuem lugar de fala e alguns grupos experimentam mais situações de injustiça ou desigualdade que outros, assim, os negros possuem um lugar de fala sobre o racismo, pois eles experimentam coletivamente as injustiças do racismo em seu cotidiano. Normalmente, as falas dos grupos privilegiados possuem maior amplitude, inclusive quando dizem respeito a temas que essas pessoas não vivenciam, como o racismo. Por esse motivo, respeitar todas as falas e entender o ponto de vista das pessoas a partir das experiências delas tornam-se atitudes fundamentais.

Mas como evidenciado no comportamento de alguns participantes do BBB, há um porém: estar inserido no interior de uma realidade social excludente, desigual ou injusta, seja pela sua cor, classe social ou gênero, não lhe dá autoridade ou privilégios no diálogo sobre a desigualdade, racismo ou o machismo, mas sim, confere ao sujeito um ponto de vista sobre aquela situação. Deste modo, uma mulher sempre terá um ponto de vista especifico sobre o machismo estrutural, pois ele está presente em situações que vivencia, como uma “cantada” no interior de um transporte público, mas ser esse o seu lugar de fala não confere a uma mulher exclusividade no diálogo sobre o machismo, do mesmo modo, ser pertencente a uma realidade desigual ou excludente não dá o privilégio para que um sujeito julgue ou zombe de outro que também viva essa realidade, como quando um negro diz que o outro “não é tão negro” ou quando uma mulher diz que uma outra “está com frescura ou exagerando” ao denunciar um abuso sofrido.

Assim, lugar de fala diz respeito a necessidade de diálogo e de valorização de todas as falas e não sobre quem tem o direito ou o privilégio de falar sobre algo enquanto vanguarda ou porta-voz. A confusão acontece por que algumas pessoas, por benefício próprio, parecem buscar a promoção pessoal através do silenciamento do outro, e para isso, se colocam como autoridade em assuntos que lhe dizem respeito, nessas situações, cancelar uma fala torna-se sinônimo de agressão e não de representatividade, atitude que em nada contribui para a democratização das falas.

** Lucas Alves de Camargo possui bacharelado e licenciatura em “História”, lato sensu em “História, Sociedade e Cultura”, mestrado em “História Social”, titulações conferidas pela PUC-SP; especialização em Gestão Pública pela UNIFESP e licenciatura em Pedagogia pela UNINOVE. Pesquisou a formação do movimento de Direitos Humanos da cidade de Osasco, entre os anos de 1977-1985.