‘Te amarrar e te chicotear’: o que diziam os professores suspeitos de assédio

 ‘Te amarrar e te chicotear’: o que diziam os professores suspeitos de assédio

Foto: Arquivo pessoal/G1

“Você é linda. Quero te pegar no colo. Você é toda especial”. “Gostaria de ter você nos meus braços”. “Deixa eu te ver e te pegar no colo”. Mensagens como essas foram atribuídas ao professor Eduardo Mistura, que lecionava história no Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB), na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, segundo denúncia encaminhada à Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ e revelada pelo g1 nesta semana.

Ao g1, uma ex-aluna relatou também que Mistura tinha o costume de abraçar. “Em 2008, foi quando ele começou a se aproximar de mim e rolou dois selinhos que ele disse ter sido sem querer, já que ele tinha o costume de abraçar e dar dois beijos no meu rosto”.

Outro professor, Álvaro Luiz Pereira Barros, que lecionava educação física no mesmo colégio, também é alvo da denúncia. “Vou te amarrar e te chicotear”, teria dito o docente em mensagem a uma então aluna.

O colégio é subordinado à Força Aérea Brasileira (FAB). As denúncias apontam para possíveis abusos que teriam acontecido entre os anos de 2014 e 2020, quando algumas estudantes ainda eram menores de idade.

Além das capturas de tela que mostram as supostas conversas que foram entregues aos advogados da OAB, estão estão ainda áudios e relatos.

O que dizem os citados

Por telefone, na última sexta-feira (6), Mistura negou as acusações. “Até agora não aconteceu nenhuma constatação de que houve qualquer coisa relacionada a abuso sexual”, disse ele.

Mistura também afirmou que as mensagens atribuídas a ele foram retiradas de contexto. Já em relação aos abraços nas alunas mulheres, o professor de história disse que esse é um tratamento que ele tem com todos que dão intimidade a ele. Mistura disse também que espera ser inocentado de todas as acusações.

O professor Álvaro Barros não retornou as mensagens e ligações feitas pela reportagem.

Os responsáveis pelo Colégio Brigadeiro Newton Braga (CBNB) disseram que os casos citados ocorreram há aproximadamente dois anos e que apesar de não terem sido denunciados formalmente à instituição, a administração instaurou, em 23 de junho de 2020, uma apuração por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) que foi concluído e encaminhado ao Ministério Público Militar.

“Na ocasião, os supostos envolvidos ficaram também, por medida de cautela, afastados de suas funções por até 120 dias, prazo máximo previsto em lei”, diz trecho da nota do colégio.

“A Força Aérea Brasileira reitera que atua para coibir irregularidades e que repudia condutas que não representam os valores, a dedicação e o trabalho do efetivo em prol do cumprimento de sua missão Institucional. Na mesma esteira, trabalha para manter o CBNB entre as melhores Instituições de Ensino do Rio de Janeiro, reconhecido por sua excelência e respeitado por sua tradição de ensino”, afirma outro trecho da nota.

Como surgiram as denúncias

O g1 revelou, nesta segunda-feira (9), que a Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ recebeu, em abril, um grupo de ex-alunas do Colégio Brigadeiro Newton Braga que disseram ter sofrido assédio sexual por parte dos dois professores.

O objetivo do grupo de ex-alunos é buscar auxílio jurídico na comissão da OAB para que o caso seja investigado pelo Ministério Público Federal (MPF), uma vez que a instituição é ligada a uma das forças militares brasileiras.

Apesar das denuncias apontarem para suspeitas de assédio sexual entre os anos de 2014 e 2020, segundo as alunas, elas só procuraram apoio jurídico agora por conta da retomada das investigações internas da instituição.

No início do ano, algumas delas foram chamadas para prestar esclarecimentos sobre postagens feitas em 2020, quando alunos criaram um perfil numa rede social para denunciarem possíveis práticas abusivas de professores da escola. O evento ficou conhecido como “Exposed Newton”.

Durante os depoimentos para a investigação interna, as jovens relataram que se sentiram mais como suspeitas por alguma infração do que como possíveis vítimas de assédio.

Uma delas contou que teve que responder perguntas de um advogado de Mistura sobre sua saúde mental. Segundo a jovem, eles tentavam desqualificar suas acusações colocando em dúvida sua lucidez.

Nesta terça-feira (10), mais quatro ex-alunas buscaram a Comissão para apresentarem novas denúncias de assédio sexual contra os dois professores.

As novas denúncias devem ser incluídas no documento que a comissão está preparando para levar ao Ministério Público Federal (MPF), uma vez que a instituição é ligada a uma das forças militares brasileiras. (com g1.globo.com)

Da Redação